domingo, 25 de janeiro de 2015

Discreto e ‘workaholic’ assumido, Rodrigo Santoro se diz tranquilo com ‘a tal maturidade’

RIO - Já são dez horas da noite de uma sexta-feira quando os sapatos são avistados e, finalmente, calçados de novo. Foram quase cinco horas com os pés no chão, andando de um lado para o outro, conversando, posando para fotos, e sem qualquer reclamação sobre o piso quente depois de uma tarde com temperatura perto dos 40 graus Celsius. É assim que Rodrigo Santoro diz gostar de ficar em casa, é assim que diz se sentir em casa. — Cresci com os pés no chão na fazenda do meu avô, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Hoje, quando volto de uma viagem longa, a primeira coisa que eu faço é tirar os sapatos. Acho que assim sofro menos com o jet lag — conta o ator, em entrevista à Revista O GLOBO no Criadouro Carioca, misto de estúdio, galeria e espaço para workshops, no Itanhangá. — O pé descalço metafórico também é o que procuro. A fama e a vaidade podem tirar qualquer um do centro e do equilíbrio. Precisei exercitar a humildade e tomar as rédeas da minha vida. Desde a vaia homérica que ouviu antes da primeira sessão de “Bicho de sete cabeças” no Festival de Brasília, 15 anos atrás — numa clara manifestação de desconfiança da plateia com o então galã de novelas —, a trajetória profissional de Rodrigo, especialmente no cinema, tem sido intensa. “Abril despedaçado”, lançado logo depois, abriu portas para o início de uma carreira internacional que começou com uma pequena participação (sem blusa e sem fala) em “As Panteras: detonando”. Hoje, pode-se afirmar que nenhum outro ator brasileiro teve tantos papéis em Hollywood. — Olho para trás e vejo por quantas montanhas-russas passei. Pra você ver que não tem molezinha para ninguém. Nem para mim. Mas estou me sentindo numa fase muito boa. Talvez seja a tal maturidade — acredita Rodrigo, que está no elenco de cinco produções internacionais que serão lançadas este ano, prepara-se para filmar a nova série do criador de “Lost”, foi convidado para interpretar Jesus Cristo no remake de “Ben-Hur” e faz 40 anos em agosto. — Não é com 40 que falam que a vida começa? No meu caso, vieram junto as dores na lombar. Fratura durante partida de futebol Se o incômodo na coluna é desmentido logo, entre uma piscada de olho e um sorriso, Rodrigo admite que ficou preocupado quando, em outubro passado, fraturou o cotovelo direito durante uma partida de futebol com os amigos. Para se recuperar, teve que imobilizar o braço por um mês e fazer seguidas sessões de fisioterapia. Agora, lamenta ter que ficar afastado dos gramados. Rodrigo é vascaíno, gosta de jogar na posição de atacante e de fazer gols. — Não dá pra ser ruim depois de ter aulas com o Cláudio Adão, né? — diz, ao lembrar da preparação que teve com o ex-jogador para “Heleno”, filme que foi lançado em 2012 (e no qual botou dinheiro do próprio bolso). De molho nos últimos três meses e estudando novos roteiros, textos de Guimarães Rosa e relendo “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski, Rodrigo conta os dias para voltar à labuta. No mês que vem, embarca para mais uma temporada nos Estados Unidos para participar de “Westworld”, nova série de J. J. Abrams, o idealizador de “Lost”. A adaptação baseada na ficção científica de 1973 terá Anthony Hopkins, Evan Rachel Wood e o brasileiro como Harlan Bell, descrito como um bandido “terrível e brutal”. — Fazer este trabalho me dá uma certa sensação de segurança, porque sei que vou morar no mesmo lugar durante um período maior, o que é cada vez mais raro. Claro que é uma opção minha não fazer nenhuma novela ou filme aqui no momento, mas não consigo me acostumar com essa instabilidade da profissão. Lançamentos internacionais em 2015 Sem contratos fixos ou projetos concretos no Brasil, Rodrigo aprendeu a ter paciência para esperar pelos testes e propostas que vêm de fora. E também a ser ágil quando é preciso. No ano passado, o convite para “Dominion”, sobre o poeta galês Dylan Thomas e dirigido por Steve Bernstein, veio em cima da hora. Teve uma semana para se preparar para o personagem Carlos (“um dos mais incríveis que já fiz”, conta), arrumar as malas e embarcar rumo a Montreal, no Canadá. — A conquista do Rodrigo fora do país já o coloca numa posição única na história de nossos intérpretes — analisa o ator e diretor Selton Mello, que conheceu Rodrigo em sua estreia na TV, na novela “Olho no olho”, em 1993. — Ele não é somente um grande ator, é um grande cara, educado, íntegro. Temos um imenso desejo de juntar forças em algum trabalho e estamos buscando algo para fazer juntos. Além de “Dominion”, serão lançadas outras quatro produções internacionais com Rodrigo em 2015. Na comédia “Golpe duplo” — prevista para chegar aos cinemas brasileiros no dia 12 de março —, ele interpreta o dono de uma empresa de carros de corrida que complica a vida do personagem vivido por Will Smith (“Rodrigo é um daqueles atores raros: talentoso e disciplinado”, elogia o astro de Hollywood no material de divulgação). Com Antonio Banderas e Juliette Binoche, “The 33” trata do drama dos chilenos que ficaram 69 dias presos numa mina depois de um acidente em 2010 e deve ser lançado até o fim do ano. O ator fez ainda participações em “Pelé”, dos americanos Jeff e Michael Zimbalist (é produtor associado também), e em “Jane got a gun”, que estreia nos próximos meses. — Eu tinha uma fantasia com cavalo. Não pensava exatamente em interpretar um caubói, mas sempre quis fazer uma cena cavalgando. Tive essa chance em “Hemingway & Gelhorn” (2012) e nesse filme. Foi inesquecível. Na produção que tem as estrelas Natalie Portman e Ewan McGregor, o brasileiro teve que carregar no sotaque do Sul dos Estados Unidos durante a interpretação de Fitchum, um integrante de uma gangue do Velho Oeste. Depois de anos de estudo com professores particulares, ele mostra cada vez mais desenvoltura no inglês, o que pode ser conferido nas telonas e nas entrevistas aos jornalistas estrangeiros. Quando não sabe uma ou outra palavra, recorre a um dicionário online para descobrir a tradução e ouvir a pronúncia, quase sempre repetida várias vezes seguidas. — Gosto de lembrar que não fui alfabetizado em inglês, então não dá para me cobrar perfeição absoluta. Quando passo muito tempo no Brasil, é claro que dá uma enferrujada. Mas eu me esforço bastante. No começo, era até engraçado: terminava as palavras com “ation” e olhava pra cara da pessoa pra ver se ela tinha entendido alguma coisa. Para interpretar o irmão de Fidel, Raúl Castro, em “Che” (2008), além de muita insistência com os produtores até conseguir o papel, Rodrigo teve aulas de espanhol (“Só falava portunhol”) e visitou Cuba. O companheiro da viagem foi um amigo e preparador de atores, Sérgio Penna. Os dois percorreram o país durante 20 dias e mergulharam juntos na pesquisa e construção do personagem. — Este foi um investimento pessoal dele, que se diferencia com sensibilidade e dedicação de poucos. Ao longo da carreira, teve que emagrecer, engordar, mudar o cabelo — afirma Sérgio, que trabalha com Rodrigo há 15 anos. — Não seguimos um método específico, mas respeito o Rodrigo. Ele é reservado, um homem do silêncio. Quando partiu em busca de um ator para ser o protagonista de seu longa de estreia, Laís Bodanzky ouviu o nome de Rodrigo Santoro pela primeira vez. Paulo Autran tinha contracenado com ele na minissérie “Hilda Furacão”(1998) e contou ter ficado impressionado com o empenho do menino. — Nunca tinha ouvido o nome dele antes e confesso que fiquei desconfiada. Meus amigos perguntavam: por que você vai chamar um ator de novela? Mas foi uma escolha perfeita. Apesar de não parecer, Rodrigo é um homem tímido e, dentro daquela introspecção dele, se descobriu cinematográfico — afirma a diretora de “Bicho de sete cabeças”. Diretor de “Heleno”, José Henrique Fonseca ficou surpreso com o envolvimento de Rodrigo: — Trabalhamos um mês numa fazenda que servia de locação para a clínica psiquiátrica onde Heleno estava internado. Ele perdeu mais de dez quilos, estava debilitado, mas nunca voltava com a equipe para o hotel. Preferia ficar lá sozinho. Ele mergulhou tão fundo no personagem que às vezes achava que tinha perdido o norte. Focado na meditação Workaholic assumido, Rodrigo medita quando está muito agitado (“Paro e respiro profundamente”) e sempre carrega na mala o tapetinho de ioga. Já fez vários tipos, como ashtanga e hatha, mas hoje prefere misturar as posturas que aprendeu com os exercícios de treinamento funcional que descobriu recentemente. No apartamento onde mora no Leblon (o mesmo há dez anos), tem um espaçoso quarto com almofadas no chão, bolas e elásticos para o treino, geralmente supervisionado pelo personal que o acompanha há mais de uma década. — Rodrigo é uma pessoa extremamente autêntica e acho que isso se reflete nas relações que ele tem e preserva por tanto tempo — conta o ator Eriberto Leão, amigo há quase duas décadas, desde que contracenaram na novela “O amor está no ar”. — Ele se sacrifica por seus personagens como poucos. A entrega é tão grande que pode passar um período enorme só falando sobre o mesmo tema. É tão obcecado pelo trabalho que nem estranho se ele ficar uma semana sem atender o telefone — revela o ator Marcelo Serrado, parceiro das peladas há 15 anos. Quando está sozinho, Rodrigo gosta de cantar andando pela casa e, com os amigos, arrisca-se na gaita e no violão. Para treinar para “Os desafinados” (2008), comprou um piano do qual não se desfez, mas que hoje é dedilhado apenas pelo sobrinho Frederico, de 9 anos, filho de sua irmã, a arquiteta Flávia. Rodrigo gosta de estudar sobre diferentes assuntos (geralmente, referentes ao projeto da vez) e lamenta não ter terminado a faculdade de Comunicação Social na PUC. Depois de trancar a matrícula do curso por duas vezes, acabou jubilado. Amor pelo surfe Sempre que pode, é para perto do mar que ele foge. É louco por surfe, anda encantado com o campeão mundial Gabriel Medina e mandou fazer um móvel especial para suas oito pranchas — uma delas, presente do big rider Carlos Burle. No ano passado, entre uma filmagem e outra, correu para El Salvador para surfar com um grupo de amigos. Perto de casa, em Ipanema ou na Lagoa, circula a pé, de bicicleta ou de moto. O carro, comprado há quase dez anos, costuma ficar mais tempo na garagem do que na rua. Outro destino frequente é Petrópolis, cidade onde nasceu e onde os pais mantêm uma casa. É lá que vai à feira para escolher frutas e legumes com o pai, o engenheiro Francesco, que ajuda a cuidar da carreira do filho há 22 anos. — A vida do artista é tão exposta que é importante sair um pouco de cima do palco. Às vezes, pode ser até complicado, mas não deixo de fazer o que gosto. Quando fico um tempo grande fora do Brasil, é até curioso, porque observo mais do que sou observado. Isso não deixa de ser uma experiência muito rica para mim. Desta vez, ele finca os pés em Los Angeles graças a “Westworld” por pelo menos seis meses e procura um apartamento para alugar na cidade, onde já passou algumas temporadas nos últimos anos. — Tive momentos de muita solidão, sabia? — diz o ator, que desta vez vai ter a companhia de Mel Fronckowiak, sua namorada há dois anos e meio. — É claro que, como todo casal, temos nossos planos. E a ideia da construção da família, de ter filhos, é um deles, mas alguns ajustes precisam ser feitos antes. Até porque gostaria de ser uma pessoa presente. Meus pais são casados até hoje e um exemplo para mim. Atriz da novela “Rebelde”, febre entre adolescentes em 2011, a gaúcha Mel, de 27 anos, mudou-se de mala e cuia para a casa de Rodrigo. Na internet, é uma celebridade, com mais de um milhão de seguidores somente no Twitter. Apesar disso, a moça segue a mesma linha discreta e não posta qualquer foto dos dois nem faz comentários sobre o namorado. Fora das redes sociais, o ator garante não acompanhar a vida virtual de Mel, mas confessa que já pensou em fazer uma conta no Instagram ou Facebook. — Não gosto da exposição, mas profissionalmente pode ser interessante. Se fizer algum sentido para mim, quem sabe? Com a escolha de continuar vivendo no Rio, ele diz ter gastos altos para viajar quando é chamado, de uma hora para outra, para algum teste de elenco em outro país. Nos Estados Unidos, o piso estipulado pelo sindicato dos atores, o Screen Actors Guild, é de cerca de US$ 3 mil por semana, valor ínfimo perto do que ele poderia ganhar aqui na época em que já era protagonista de novela. Um artista iniciante, por exemplo, receberia mais para dar o ar da graça num evento por uma ou duas horas. — Já me perguntaram várias vezes como é me sentir no auge. Auge do quê? — questiona, pausadamente.— Fico feliz quando vejo que estou num trabalho que tem todos os elementos para virar um sucesso. O fato é que nem sempre isso acontece. Lá fora, não sou conhecido como no Brasil e tenho caminhos longos a percorrer. É exatamente isso que não posso esquecer. Nunca. Créditos: Roberta Salomone | Jornal O Globo
Share this article
 
Copyright © 2014 BLOG DO RICKY • Some Rights Reserved.
Template Design by RICKY MEDEIROS • Powered by Blogger
back to top