sábado, 27 de dezembro de 2014

Alexandre Nero: O ator cool e desbocado que inaugurou uma nova era de galãs da TV

Num sábado de novembro, ao contrário do que anunciava a previsão do tempo, o sol saiu no Rio de Janeiro e as praias ficaram lotadas do Leme ao Pontal. Na cobertura de um prédio de três andares na zona oeste, com todas as portas e janelas acortinadas e o ar-condicionado no talo, o ator Alexandre Nero ignorava o mar, a caipirinha e o biscoito Globo. Não gosto de praia, de sol”, ele diz com desdém. Algo que soaria uma extravagância, de tão perto o mar e convidativo o dia, vindo de Nero parece natural, parte de uma personalidade da qual saltam dois traços fundamentais e perceptíveis em quaisquer dois dedos de prosa: a inadequação e o desafio. Nascido em Curitiba, criado em São Paulo e Minas, tendo voltado à capital paranaense aos 18 anos e há seis vivendo no Rio, o ator, cantor e compositor foi catapultado a um patamar mais elevado de sucesso, fama e crítica ao seu trabalho em 2014 graças à interpretação de um dos personagens mais nuançados da dramaturgia brasileira recente. “Eu precisava que o comendador fosse daqueles personagens maiores que a vida”, diz Aguinaldo Silva, autor de Império, a novela das 9 da Globo que tem feito mulheres suspirarem por Nero e marmanjos invejá-lo, sobretudo pelo triângulo amoroso que alimenta em cena – numa das pontas, com Marina Ruy Barbosa. Poderoso (e o principal: ciente de quão longe esse poder pode levá-lo), capaz de atitudes tão generosas quanto extremadas para defender seus pontos de vista, protegidos e segredos, o comendador, como uma mão, encontrou em Nero a luva. O denominador comum mais aparente entre os dois parece ser a coragem de dizer o que pensa numa época em que ter opinião pública é estar submetido a uma permanente patrulha histérica e ideológica – “me sinto podado no que falo todos os dias”. “Eu acho que a gente vive um processo acelerado de idiotização”, diz Nero, num arroubo que caberia em qualquer diálogo com José Alfredo. “As pessoas não se contentam mais com a própria burrice, elas precisam fazer você pensar igual a elas – ou linchá-lo se não conseguir. Da política à novela, é impressionante. Eu gostaria, por exemplo, de ter aberto o voto nas eleições. Quer dizer, iria correr o risco de ter que brigar no meio da rua. Olha que merda!” Nero tem o desassombro de quem partiu cedo e se ferrou muito para chegar onde está. Aos 14 anos, quando morava em São Paulo, perdeu a mãe. Três anos depois, foi o pai. “A gente não se recupera nunca desse coice. Você se acostuma, mas a dor não passa.” Entre uma perda e outra, ele já morava no interior de Minas, onde se formou técnico agrícola. Sem pai nem mãe e longe das duas irmãs mais novas, Nero voltou a Curitiba, para viver com um tio. “Foi doloroso e libertador. Ao mesmo tempo em que eu não tinha mais os meus pais, me senti livre para fazer o que bem entendesse da vida, sem dar satisfação a ninguém”, conta. Libertador como decidir virar músico da noite para tirar uns trocados. O violão, que aprendeu a tocar sozinho na adolescência, o levaria aos primeiros palcos, de bares e praças de alimentação. De banquinho em banquinho – e plateias mais preocupadas com o hambúrguer à frente do que com o cantor ao lado – Nero se tornou músico profissional. Para quem espera uma justificativa falando do chamado da arte para a nova carreira, ele manda na lata: “Tudo o que fiz até hoje, mesmo me tornar ator, não tem a ver com iluminação, chamado. Eu só queria sobreviver”. “Recentemente, entrei e a seção inteira de discos estava com a minha cara, mas o disco não era meu, era o da novela! Não é foda isso? Estou lá, mas não sou eu”, diz, com um riso autodepreciativo. Do violão para o teatro foi um pulo. Convidado por um amigo para fazer o teste para uma peça, ele passou e transformou tudo aquilo sobre o qual escreveu o russo Constantin Stanilavski num bico: só queria sobreviver. Tinha, como na música, talento. Participou de vários grupos e montagens teatrais na cidade, paralelo à carreira musical. “Quando o visitei só percebi que aquele cara que morava a quatro quadras de mim em Curitiba era famoso quando saímos na rua. A diferença é que agora ele tem um carro legal e só”, conta Diego Fortes, amigo do grupo de teatro curitibano A Armadilha. “O sucesso dele não surpreende quem o conheceu. Nero é disciplinado, focado e criativo.” A Globo o descobriu como ator ainda no Paraná, num festival de teatro. A primeira novela de destaque foi A Favorita, de 2008, em que interpretou Vanderlei, um verdureiro. Aspecto curioso da carreira de Nero, observado pelo crítico de TV do UOL Nilson Xavier, é que ele subiu de vida (interpretou motorista, médico e advogado) novela a novela, até chegar ao imperial José Alfredo. Quando fala do seu colega de cena em Fina Estampa, de 2011, Dira Paes, que na novela era espancada por Baltazar, personagem de Nero, se derrete. “Ele tem inteligência cênica e sabe construir personagens. Como Baltazar ele era ao mesmo tempo violento e irresistível, a ponto de deixar Celeste sem forças para reagir.” Segundo conta Aguinaldo Silva, “foi difícil convencer, mas eu bati o pé, recusei várias estrelas e atores mais velhos que me ofereceram”, sobre a guerra antes de definir quem viveria José Alfredo de Medeiros em Império. “O que causou mais estranheza é ser um ator mais jovem que o personagem. Mas, no fim, deu no que vocês estão vendo agora.” Autor e ator não se encontraram mais do que quatro vezes na vida. Até aqui, eles têm se entendido. Tanto que, de críticos a atores e outros autores ouvidos por VIP, todos são unânimes em apontar o comendador como o grande marco na carreira de Alexandre Nero. Se veio a boa crítica ao trabalho, veio também a fama e seus incômodos. “Eu gosto do sucesso porque é um reconhecimento ao trabalho, mas odeio a fama. Não vou abrir minha casa para revista nenhuma, não vou virar carne de vaca para paparazzo.” Agora, com uma grana que jamais teve e mais assediado do que nunca, Nero parece ter fincado ainda mais os pés nas coisas que o tornam quase uma ilha no circuito Projac- Leblon: não alimenta fofocas, pouco sai de casa, preserva a intimidade sua e da namorada o quanto pode. O apartamento em que vive é espartano e discreto. Ele gosta de uísque, charuto, violões e roupas. São as suas maiores extravagâncias – não gosta de viajar, por exemplo. Pela estante, revela-se um bom leitor de quadrinhos, de autores difíceis como Daniel Clowes e Chester Brown, ou romancistas cults como Manoel Carlos Karam. “Eu tenho um humor mais maldito, como o desses caras, às vezes choca as pessoas.” Há quatro meses, quando publicou numa rede social a foto com uma cabra, na infância, e fez menção bem-humorada à zoofilia, Nero foi linchado por militantes, que partiram do argumento para a ameaça física em dois cliques. No Twitter, ele respondeu: “Minha culpa foi superestimar a massa. Pensei que não pudessem ser tão imbecis”. Quando fala de grana e tudo o que pode comprar com seu salário que, estima-se, hoje esteja na casa de altos cinco dígitos, Nero não titubeia (aliás, em hora nenhuma): “Eu sei que parece demagogia, mas o dinheiro não compra nada do que eu gosto. É calma, paz, meu violão, poder falar o que penso. Eu trocaria toda a fama para não ter ninguém enchendo o meu saco por nada do que eu faça ou fale”, diz, um pouco chateado, mas sem perder o humor, e voltando do elevador para se despedir da namorada, em pleno sábado de sol, pouco antes de ir ao Projac, onde gravaria cenas até a madrugada. Fonte: Revista VIP Por Rodrigo Levino / FOTOS: Daryan Dornelles
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