segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Bárbara Paz e Pierre Baitelli criam jogo de sedução no teatro, na peça 'Vênus em Visom'

Com uma metalinguagem que dialoga com o clichê, no palco, uma aspirante a atriz chega atrasada para o teste de uma peça clássica e é destratada pelo diretor impaciente. A talentosa personagem, embora atrapalhada, começa a fazer a leitura do texto e usa da obra para misturar realidade e ficção e dar início a um jogo de sedução. Ora instigando o enfrentamento, ora buscando compreensão, aos poucos Vanda reverte a posição de controle inicialmente ocupada pelo encenador. Bárbara Paz e Pierre Baitelli encenam a dupla que vira a mesa e mostra a disputa de poder no meio do conflituoso embate de gêneros em “Vênus em Visom”, do dramaturgo americano David Ives, que estreia amanhã no Teatro do Leblon. Na direção do espetáculo, ressalta a riqueza do texto ao sair de uma situação comum para expor uma situação que vai além do teatro. – A peça é um acerto, total e absoluto, porque lida com situações que podem parecer clichês, mas, ao mesmo tempo, é utilizado para sedimentar uma base de confiança no expectador para depois puxar o tapete dele. É um inteligentíssimo quebra-cabeça. É uma peça que lida com gêneros, com inversões de sexo e lida com humilhação, obediência, subserviência e controle. Ou seja, tem o lado cômico e tem o lado altamente perverso da troca de personagem, do homem acabar mulher e da mulher acabar homem – observa o cineasta, que já dirigiu Bárbara, sua mulher, no espetáculo “Hell”. O texto “Vênus em Visom” chegou até Bárbara Paz por meio de amigos que viam a atriz como a escolha certa para encenar Vanda na versão brasileira. Repetindo a elogiada parceria no espetáculo “Hell”, a atriz levou a obra até Babenco que também ficou maravilhado. Bárbara, que prefere interpretar personagens fortes, destaca a complexidade do texto: – Ela é uma atriz que chega toda espevitada no teste e bastante atrasada. Pode-se dizer que ela tem perfil de uma figurante. Mas aos poucos vai se revelando quem é esta mulher, quem de fato é esta atriz. E o jogo começa a tomar outra dimensão. Isso tudo fez eu me encantar pelo texto. Brincar com meu ridículo e minha devoção. Ser várias e ser só uma. Para Babenco, a peça ganha um tom de vingança quando a atriz consegue descontruir o papel dominante do homem e, ao propor uma nova perspectiva, se coloca no lugar de controle, tendo o poder consigo: – O texto sugere e acaba confirmando que quando a mulher se transforma em um indivíduo com os mesmo direitos e deveres do que o homem dentro da sociedade ela pode se colocar em uma situação de poder que pode ser tão maliciosa quanto à do homem. Claro que ela fica em uma situação de poder igual a do homem, só que ela abusa quase como se fosse um modelo de vingança pelo o que todas as mulheres já sofreram. A peça é o triunfo da Afrodite, em que o homem acaba humilhado e ela reinando. Bárbara Paz complementa: – De alguma forma, a mulher tem tomado as rédeas da sua vida cada vez mais. Tem tomado à frente suas posições na sociedade. A peça é uma mistura de gêneros. Tem humor, sexualidade, sadomasoquismo e humilhação. É um jogo teatral que vai do Teatro de Revista a Proust. Tem um pouco de tudo. Dono de uma premiada carreira na direção cinematográfica, Babenco defende que o elenco deve ter espaço para participar da criação e que o diretor deve prezar por uma visão plural na hora de desenvolver o espetáculo: – Eu penso que, se eu faço escolhas, essas escolhas têm vida própria e essas pessoas que eu escolho têm coisas a apresentar. Então a minha primeira proposta antes de dizer aos atores o que eu quero é pedir que eles me digam o que gostariam de fazer. Da combinação entre o que os atores querem e propõem e o que eu desejo sinto que começa a nascer um tipo de interpretação, pela qual eu vou ordenando e organizando um discurso, e o ator vai sentindo de uma forma quase que informal que é ele que está fazendo o personagem, quando na verdade ele não percebe que está sendo dirigido. Enquanto Babenco atualmente trabalha em seu novo filme, “Cidade Maravilhosa”, Bárbara precisou reorganizar a rotina para conseguir conciliar as gravações da novela “Amor à Vida” com a preparação para “Vênus em Visom”: – Ensaio a peça nas minhas folgas, à noite, de madrugada. Dependendo do roteiro da novela a equipe da peça se encaixava nos meus horários. O teatro me educou, me ensinou tudo. Poder fazer teatro enquanto estou fazendo também televisão é maravilhoso, pois sempre volto para a TV com um chão maior, uma estabilidade. Eu me sinto melhor e maior, pois o teatro é a base tudo.
Share this article
 
Copyright © 2014 BLOG DO RICKY • Some Rights Reserved.
Template Design by RICKY MEDEIROS • Powered by Blogger
back to top